25 de Novembro: o Inverno da Revolução

O 25 de Novembro a Norte<br>de Jorge Sarabando

Domingos Lobo

Existem datas, no percurso dos povos, que nos tocam fundo, nos emocionam, dado que deixaram lastro pelo que significaram de possível, de avanço civilizacional e humano: a Revolução Francesa (1789); a Comuna de Paris (1871); a Revolução Mexicana (1910); a Revolução Russa (1917); a Revolução Cubana (1956). Entre nós, para além da simbologia da data inaugural do País que somos (1139), outros períodos históricos se tornaram relevantes e pontuaram significativos avanços na nossa luta secular pela justiça e dignidade da nossa condição: a Revolução de 1383; a Revolução Liberal (no Porto), em 1820; a Implantação da República (1910) e, de todas, não apenas por nos estar próxima, por nela havermos participado na medida dos braços e do jeito, a mais criativa, determinante e humanista – a Revolução de 25 de Abril de 1974. Com a Revolução dos Cravos, foi possível (e este possível teve, nos dias mais altos desse percurso, aspectos de um épico absoluto) mudar o rumo do século XX português, influenciar outros povos e criar bases para um futuro mais amplo, fecundo e promissor para a maioria dos portugueses, a maioria activa que nas ruas e nas praças do País exigia que o sonho se cumprisse.

O 25 de Novembro, que a direita, serôdia e revanchista, essa minoria dos privilégios e da usura, tenta tornar marco das suas lutas anti-revolucionárias, de regressão cultural e civilizacional, não é data que conste do nosso calendário de afectos: a anti-história não é relevante nem gloriosa, alimenta-se do ódio, do rancor, da mesquinhez; vive da vergonha da sua própria origem, dos seus preclaros desígnios. É uma irrelevância que se exibe coxa e a cheirar a naftalina, com as mãos sujas de sangue, atrelada à ignomínia dos dias do terror; vive de mentiras urdidas sem honra nem pudor.

É desse substracto larvar, desse chão de lacraus, do medo erguido como bandeira de perpetuação de ancestrais domínios, que o oportuno livro O 25 de Novembro a Norte – o processo revolucionário no ano de 1975, de Jorge Sarabando, nos fala de modo informado e minucioso.

Jorge Sarabando traça, desse longo período da contra-revolução, um retrato assertivo, rigoroso sobre os meses mais quentes, quiçá os mais intensos das conquistas sociais, políticas e económicas que transformariam a face de um país parado no tempo, vergado ao medo e sem projecto colectivo; país ao qual o fascismo, nos 48 anos que durou o consulado salazarento, tinha sonegado a esperança e a capacidade de se reinventar. Este livro faz sentido e é original nos seus propósitos, dado a sua análise se debruçar sobre factos vividos, e sofridos, a Norte de uma linha definida pelas forças regressivas, que teria a sua fronteira em Rio Maior (à época eixo estruturante das comunicações terrestres), dessa forma dividindo, numa espécie de esquizofrenia delirante e suicida, o País em dois blocos antagónicos: o Norte conservador e contra-revolucionário, e o Sul progressista e revolucionário. Táctica básica, dividir para reinar, que Nicolau Maquiavel teorizou e que até o mais empedernido cabo militar terá intuído nas suas linhas gerais.

Não por acaso – o acaso é, na luta de classes, a realidade em movimento –, o ELP e o MDLP situaram, a partir dessa linha divisória, o grosso das suas acções contra-revolucionárias: perseguindo militantes comunistas e de outras forças de esquerda, activistas sindicais e, em alguns casos, chegando a assassinar muitos deles, destruindo e incendiando sedes de partidos (e o PCP, erigido inimigo principal, foi a grande vítima deste processo) numa estratégia que vinha nos compêndios da guerrilha urbana, e que Carl von Clausewitz definira: instalar no País o desgaste e o atrito constantes, até atingir o clímax, ou seja, criar um clima psicológico e emotivo que estabelecesse condições propícias ao contra-ataque das forças reaccionárias. Foi exactamente isso que os seguidores de Spínola, acantonados no ELP e no MDLP, de Alpoim Calvão tentaram, em desespero, no 28 de Setembro e no 11 de Março. Estas acções, que em alguns casos contaram com o incitamento colaborante de grupos esquerdistas, deixaram, entre Maio de 75 e Abril de 77, um trágico rastro de destruição e morte: «310 atentados bombistas; 136 assaltos; 58 incêndios; 36 espancamentos; 16 atentados a tiro; 10 apedrejamentos».1

Jorge Sarabando, com este livro, vem carrear para o debate histórico (debate que a distanciação temporal, face aos acontecimentos e seus principais protagonistas, permite fazer com algum rigor e lucidez), uma série de elementos (as lutas internas no MFA, a acção do COPCON, o Grupo dos 9, o papel da CIA, Corvacho vs. Veloso, etc.) estruturantes para o entendimento cabal do que foi o Verão Quente de 75, suas conquistas e consequências, e o processo contra revolucionário que se lhe seguiu, o qual conduziria ao 25 de Novembro, ou seja, ao Inverno da Revolução.

Jorge Sarabando, servindo-se de vasta bibliografia, da qual salientamos Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal – tomo V; A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril, de Álvaro Cunhal; Dossier Terrorismo; O Segredo do 25 de Novembro, de José Freire Antunes; 1975, o ano do furacão revolucionário, de João Céu e Silva, etc., pluralidade de fontes e de pesquisa documental que permitiram ao autor traçar e definir, mês a mês (de Janeiro a Dezembro) os acontecimentos mais marcantes do PREC, da Reforma Agrária, às nacionalizações dos sectores estratégicos, passando pelos ardis, as mentiras, as traições, as insídias, os embustes, as demissões e a violência dos saudosistas das sombras, na expressão feliz de José Viale Moutinho, no texto introdutório, e as lutas de um povo que soube resistir a todos os ultrajes e provocações.

Agora que a direita (a extrema e a outra que nela se confunde) exibe, frente às solicitas pantalhas das televisões, numa reunião de tias, as parangonas de um pasquim que inscreve, em primeira página, o 25 de Novembro, data que lhes é estimável, e que as fará rejubilar de antegozo revanchista, escamoteando – como sempre fez em relação ao factual histórico – o seu intrínseco significado, as origens de classe, os objectivos, os crimes que conduziram ao eclodir do golpe que interrompeu um dos períodos mais dignos e justos de toda a nossa história.

Jorge Sarabando, transcreve alguns títulos de O Comércio do Porto, reveladores dos processos utilizados pela direita para criar o caldo de cultura propício a golpadas futuras: há pais que não deixam os filhos ir à escola; há intermediários que abusam dos produtores; gelam os pés das crianças nas escolas ou, como sintomático acervo de todas esta estratégia de medo e sobressalto: as folhas de pagamento aos trabalhadores de uma empresa de Arcos de Valdevez traziam folhas de inscrição no PPD. Elementar, como diria o outro.

Francisco Duarte Mangas, escreveu um conto com o título O Medo Não Podia Ter Tudo, subvertendo os versos de um poema famoso de Alexandre O’ Neill. O medo não pode, e não terá tudo, mesmo quando o Inverno e as Sombras se tentam de novo instalar mordendo-nos os dias e tentando coarctar a progressão do tempo e da História.

1 O 25 de Novembro a Norte, de Jorge Sarabando, p.74

O 25 de Novembro a Norte – o processo revolucionário no ano de 1975, de Jorge Sarabando
Edição da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto

 



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